Da minha coleção de grandes emails que coleciono a muito tempo. Segue um que recebi em 1999 e me lembrou o atual time do CAP
—–Mensagem Original—–
Me desculpem. O texto eh longo, mas achei-o interessante:
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Depois de fracassar na eleição, o candidato Enéas decidiu brigar pela vaga de técnico da Seleção Brasileira de Futebol. Em apoio à sua candidatura, argumentou que o Luxemburgo era apenas “um Enéas sem barba”, e que no quesito irmã feia ele dava de goleada.
Tanto falou, e tão ruins foram os resultados do Corinthians, que Ricardo Teixeira cedeu, e efetivou Enéas como treinados dos”canarinhos”. Em sua primeira coletiva, Enéas não fugiu ao seu estilo peculiar.
- Os podres patrocinadores querem acanalhar de vez o esporte nacional, símbolo das aspirações máximas do povo brasileiro! Não podemos nem queremos ser reféns de marcas pomposas de calções e meiões vagabundos! De agora em diante, nossos uniformes serão feitos apenas por costureiras 100% nacionais, com algodão 100% nacional!
Questionado sobre o valor da multa rescisória, Enéas foi taxativo:
- A FIFA que pague! Questionado sobre a qualidade do material esportivo à base de
algodão,material pesado e altamente encharcável, Enéas jogou pra galera:
- Algodão serve sim, meu senhor! Serve para mim e para milhões de famélicos e descamisados à margem da sociedade, e serve também para esses vagabundos tratados a pão de ló que são os jogadores!
Houve um princípio de delírio popular; os jornalistas quiseram carregá-lo para fora do auditório em aclamação, mas Enéas, discreto, ficou na dele. Dias depois, sua convocação para o amistoso com a Groenlândia causou nova polêmica. Antes de dar a lista dos jogadores, ele leu um manifesto de repúdio aos amistosos caça-níqueis. Não cometeremos a vileza de transcrevê-lo inteiro; basta um trecho.
“Chega de desperdiçar nosso tempo e nossa superioridade futebolística com palhaços internacionais e pernetas ultramarinos!”
A lista de jogadores também surpreendeu. O time titular vinha com Tonicão, Beretta, Sucrilho, Serginho e Chupeta; Paraíba, Gleidson, Cruz e Tião-da-Maconha; Ventania e Picolé.
- Mas de onde saiu essa gente? – perguntou uma imprensa estarrecida. – Cadê
Ronaldinho, Rivaldo, Marcelinho?
- Minha seleção não tem lugar para mercenários que ganham milhões, a soldo de interesses mercantilistas alheios à nossa tradição cultural! Meu time é formado por excelentes jogadores da várzea carioca, lídimos praticantes do verdadeiro futebol nacional! As classes populares é que são as donas do amor à bola!”E depois”, completou, “para jogar contra um time de renas e papais-noéis, tá bom demais.”
A apresentação dos jogadores, na Granja Comary, foi motivo de constrangimento. Tonicão tinha um metro e sessenta, Gleidson pesava cento e vinte quilos, e Tião-da-Maconha estava claramente perto dos 40. Ventania era uma evidente vítima do Alzheimer, mas corria como louco, às vezes nas direções mais originais. Os treinos mostraram uma equipe com alternativas de jogada absolutamente imprevisíveis. Perderam dos juvenis do Botafogo por 16 a 2, mas a impressão da comissão técnica foi a de que poderiam ter vencido.
O povo abriu o olho, desconfiadíssimo, mas mesmo assim lotou o estádio de Manaus, onde a partida seria disputada ao meio-dia de um domingo de carnaval.
Espantaram-se ao ver a seleção chegar encarapitada numa boléia de caminhão.
“Meu time é povo, e não foge do povo”, berrava Enéas da caçamba.
- Vai ser com bola de capotão? – perguntou Beretta ao roupeiro,que nem
respondeu. – Num gosto de capotão, prefiro aquelas bolas de plástico.
Quando o time entrou em campo, viu-se que o tom do amarelo de algumas camisas era diferente, e que alguns calções tinham listras brancas, e outros não. E Tião-da-Maconha estava sem meias, e de havaianas.
O juiz bronqueou.
- Não pode jogar assim não, meu filho.
- Ô, autoridade, é que eu tenho joanete.
- Não pode. A FIFA não permite. Vá calçar suas chuteiras. Enéas deixou o banco e, dedo em riste na cara do juiz, esbravejou: – Isso é um absurdo, seu tucano, seu henriquista disfarçado! Não devemos subserviência às determinações abstrusas de pífios organismos internacionais! A tradição da pelada manda que seja disputada com pés descalços, seu entreguista!
Confuso, o juiz chamou o Tião-da-Maconha de volta. Por desencargo de consciência, perguntou:- Não vai doer na hora de chutar?
Tião abriu um sorriso axadrezado.- Eu chuto pouco, meretríssimo.
Do outro lado da cancha, os esquimós, completamente imóveis,fumegavam. Suas camisas eram de flanela vermelha, com golas brancas de pelo de urso. Os calções, de couro de foca, desciam quase até os calcanhares. E usavam gorrinhos. O anúncio da escalação groenlandesa provocou alarme na equipe médica do estádio:- Urrff, Aagh, Pfrssst, Mungh e Óolp; Burp, Mnmn, Fhrrhr e Glaaaagh; Blbl e Uhm. Técnico: Bora Milutinovic.
O time groenlandês vinha de uma boa participação nas eliminatórias da copa européia: perdeu doze jogos, onze de goleada, e um só por 2 a 0 (para o time da guarda do Vaticano, em casa). Todos eram unânimes em afirmar que o potencial de crescimento da equipe era enorme, especialmente se o time inteiro parasse de rir a cada vez que um deles chutava a bola para cima.
O capitão brasileiro era o Beretta. Cumprimentou o juiz do mesmo jeito que Mike Tyson cumprimenta seus oponentes. Recebeu de Mnmn, capitão groenlandês, um dente de leão marinho, e entregou-lhe uma lata de Skol. E deu-lhe um soco na cara.
- Num vem folgá na minha área não, esquimó! No banco, Enéas vibrava: – Isso! Mostre a esses estrangeiros podres que eles não vão nos intimidar!
Ajudado pelo juiz, Mnmn recuperou os sentidos e participou do sorteio. O Brasil ganhou, e escolheu a posse da bola. Nas cabines, Galvão Bueno consultava Falcão:- O que é que nós podemos esperar desse time, Falcão?
- Acho qui vai sê difíce esperá alguma coisa – disse o cantor, -mas certamente o potencial esculhambativo da equipe é imenso.
O Brasil começou a partida no ataque. Gleidson fez boa jogada na esquerda e
abriu para Ventania, que correu mais que a bola, deixando-a limpa nos pés
de Tião-da-Maconha. Ele teria feito um bom cruzamento, se não estivesse fascinado pelos desenhos que o sol fazia na camisa do bandeirinha. O groenlandês cobrou o lateral jogando a bola bem alto, fazendo seu time inteiro cair na gargalhada. Cruz aproveitou a distração e deu uma bela arrancada para o gol. Pena que tenha perdido o fôlego na altura do meio campo, permitindo a recuperação de Burp, que deu um bicão para o alto, alegrando novamente seu time. A bola subiu, subiu, subiu, e, de repente, caiu dentro do gol brasileiro. Tonicão não a pegou por questão de metros. Groenlândia um a zero.
Dada a saída, Ventania disparou para a pequena área brasileira com tanta convicção que o time inteiro foi atrás. Tião começou a comemorar,achando que era o empate, e os esquimós, simpáticos, chutaram a bola para cima, em meio a gargalhadas. Enquanto o time brasileiro cercava o Ventania na área, comemorando, a bola rolava mansa para o fundo das nossas redes.
Irritada, a galera vaiava. O time não se acertava; a zaga dava de bico para cima, e os esquimós caíam na risada, enervando o estádio inteiro. Possesso, Enéas tomou um guarda-chuva de uma torcedora, e dançou um frevo. Espantado, o público não viu o terceiro gol dos esquimós. Ao final do primeiro tempo, a Groenlândia só tinha seis homens em campo; os demais haviam saído, desidratados ou com insolação. O juiz foi obrigado a terminar a partida aos 43 do primeiro tempo, quando o placar já ia em 5 a zero para os esquimós. Na coletiva, Milutinovic ironizava a equipe brasileira, que para ele foi excessivamente individualista. “o rapaz da camisa 7 parecia estar sozinho em campo”, dizia, mal sabendo que a polícia só a custo continha o Ventania no vestiário. “Deixa ele”, dizia Tião-da-Maconha, “ele só quer correr. Polícia deixa ele nervoso”.Por ser amistoso, não houve exame de doping.
Enéas foi retumbante. – Jogamos uma partida excelente, sob condições desfavoráveis,contra um adversário que se aproveitou da zombaria para obter uma vantagem injusta. Esses estrangeiros são tratados aqui como deuses, mesmo quando vêm com a intenção manifesta de nos achincalhar e zombar dos nossos símbolos.
Mantido no cargo, Enéas inovou para o amistoso seguinte, contra Burkina-Fasso. Manteve o time, mas com Ronaldinho no lugar de Ventania. Perdemos, mas Ronaldinho sarou da depressão.